30 de maio de 2012

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O querido editor

30 de maio de 2012


Fiz esse desenho baseado nos cachorrinhos frescos que vejo por aí.

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25 de maio de 2012

Rascunho junho

24 de maio de 2012

Abaixo, três contos da Ana Santos* para a edição de junho do Jornal Rascunho.

As ilustrações são minhas. Todas feitas com muito amor e tinta preta.

***

O gato

O Feio esperava virado para a água, o corpo trêmulo. Com frio e farpas, as mãos dos guris catavam lenha. Os pedaços maiores o pai cortava ao meio e punha na carroça — então o Feio relinchava alto, como que reclamando do peso.

Arreganhava o pai os dentes em careta, ainda que o fardo fosse leve. Dir-se-ia doer sempre, dor de fisgada. Até no riso — mas pouco ria. Foi-se ele com a primeira leva, o relho no lombo do Feio, para a mulher aquecer a sopa.

Os guris ficaram em casacos, olhando chalanas. João usava chapéu. José tinha a cabeça nua e o cabelo comprido.

O rio era silêncio e corria. Uns poucos homens lançavam suas redes. Os guris sentaram-se no chão, fecharam os casacos. Ouviam quando em quando os mergulhões de fome negra. Sob uma árvore, perto, alguém deixara o enigma de uma caixa.

Abriram-na: eram filhotes cor de fogo, de olhinhos guardados. Sete vidas mais sete. Tantas, e mal enchiam mãos pequenas. João guardou um deles no chapéu. Espreitou-lhe os bigodes. E fê-lo afundar assim, dormindo, em seu barco de pano.

O de José girou qual bumerangue, confundiu as aves. Caiu em um baixio com miaus. O gato de pé, no rio: mover ruivo, moverzinho. João riu sem chapéu, a cabeça luzente de garoa. José atirou pedras no alvo vivo, ainda. E ainda. Difícil, de longe, matar bicho miúdo.

Não ouviu Feio vir a passo lento, não ouviu o pai: mas dedos súbitos lhe agarraram a orelha. Soltou um ai, largou as pedras. Pensou que a morte não queria o bicho, hoje.

Entrou na água. O gato era longe, cem braçadas. O rio fundo, fundo. Na décima os braços lhe falharam. Decerto a morte, hoje, queria um gurizinho: mas dedos súbitos lhe agarraram o cabelo.

O pai trouxe José como quem traz peixe comprido (dor de fisgada). O gato miou alto: aprendia a fome, em vão. José brincou rápido de náufrago. O relho do pai feriu-lhe o lombo, e João riu de novo sem chapéu.

***
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Cicuta

O morto jazia mudo à beira do riacho e era como se ouvisse tudo o que se dizia — sua expressão era a de um grande sábio, um alienista atento a sondar as loucuras da manhã.

dona de casa (consternada): o pobre deve ter passado mal e falecido aí, sozinho, sem a ajuda de ninguém.

morto (sabe-se lá de onde): na verdade, amável senhora, a morte veio suave, dir-se-ia mesmo tépida, no exato instante em que a chamei (ou talvez uns poucos minutos depois). Imagine que…

padre (contido, embora indignado): mas que passou mal, que nada! Pois não vês, filha, o vidro que se encontra ao lado dele? É o vidro do pecado!

morto (divertido): na verdade, ilustre sacerdote, clérigo, enviado, isso nada mais é do que um vidro de cicuta. Sonhava uma morte filosófica e bem se sabe que meu tão prezado Sócrates…

dono da farmácia (secando o suor do pescoço com um lenço de algodão): ao que tudo indica, o homem se envenenou. Esse odor que o vidro exala me parece característico do veneno extraído da Conium maculatum, vulgo cicuta, planta da família das umbelíferas.

morto (contrariado): na verdade, laborioso farmacêutico, não sei por que motivo complicas tanto uma coisinha tão simples (creio que assim o fazem todos os homens durante suas vidas). A cicuta é um inocente sonífero, uma porta sempre aberta para o sonho e…

padre (indignado, embora contido): essa alma triste há de queimar no fogo do inferno por toda a eternidade… rezo para que Deus lhe tenha misericórdia.

morto (desdenhoso): na verdade, ilustre sacerdote, clérigo, enviado, a temperatura é amena por aqui, mas podes rezar, sim, que rezando não dizes bobagens.

dona de casa (ainda consternada e fazendo o sinal da cruz): ele devia ser muito infeliz, coitado, mas, por Deus, nada é motivo para dar fim à própria vida (que é uma bênção).

morto (persuasivo): na verdade, amável senhora, tudo é motivo para dar fim à própria vida. O brinco na tua orelha, os chinelos nos teus pés. A vida é a vida porque há a morte, a morte adocicada e tenra como um morango, vês?, adocicada e tenra…

dono da farmácia (era o mais calado dos quatro): em verdade vos digo que chegará o dia em que a ciência possibilitará a vida eterna.

morto (gargalhando): na verdade, laborioso farmacêutico, não há nada mais indesejável do que a vida eterna! Os dias da existência são histórias repetidas em que não há sequer heróis. Queres saber de minha morte? Pois foi homérica, afirmo-te, morri dizendo um soneto à lua (de Camões), “tanto de meu estado me acho incerto”…

dona de casa (resignada): ao menos não se cortou ou se furou de bala, essas são sempre as piores mortes.

morto (pensativo): na verdade, amável senhora, não posso deixar de crer que tens certa razão. Que magnífico defunto sou eu, limpo como um recém-nascido após o primeiro banho! No entanto, as piores mortes não são a da faca e a do tiro, mas as que tardam em chegar.

dono da farmácia (balançando a cabeça): não tem documentos, nem nada. Vai ser enterrado como indigente.

morto (muito seguro): na verdade, laborioso farmacêutico, mortos não precisam de documentos.

dona de casa (dando de ombros): é! Para morrer, basta estar vivo.

morto (com um sorrisinho nos lábios): na verdade, amável senhora, concordo plenamente com tal afirmação.

padre (compenetrado): o Senhor é o meu pastor: nada me faltará, etc.

morto (impaciente): na verdade, agradar-me-ia imensamente que deixassem de conversa e fossem brincar de roda, entoando, em minha homenagem, um alegre réquiem.

O morto jazia mudo à beira do riacho e era como se ouvisse tudo o que se dizia — sua expressão era a de um grande sábio, um alienista atento a sondar as loucuras da manhã.

***

Groucho

Na capela as presenças são esparsas e as luzes baixas, era mesmo uma pessoa muito boa, nunca fez mal a ninguém, nunca feriu uma mosca, coitado, coitado. O cadáver usa bigode ultra-nítido sobre a carne exangue — dir-se-ia um Groucho não-risonho, de algodão nas narinas, e como é que a criatura vai respirar assim, pensa Lúcia e estala a língua acre, ébria.

Ela senta-se, as pernas muito juntas, o lenço no regaço, as mãos abertas nos joelhos, a mirar obstinada os dedos. Então se põe de pé ao lado do defunto e beija-lhe o rosto de olhos, de nariz e de boca, e por onde foi que a vida escapuliu se está tudo tão fechado?

Se Lúcia mordesse o morto agora, se Lúcia mordesse com vontade, ia sair sangue de água, insípido. A pele não é fria — nem morna, nem quente —, é de temperatura que não está em livro, e mesmo que estivesse ela não sentiria.

Quando eu te olhava às vezes, Júlio, quando tu estavas falando, quando tu estavas comendo, eu te pensava no escuro e devorado por bicho, e pra onde vai o Júlio falando, e pra onde vai o Júlio comendo, e não é a coisa mais esquisita?

(O carteiro marcaria com um X: falecido.)

É fim de outono e chorar seca gelado, forma caminhos de caracol.

Chove uma chuva sem trovão, num murmúrio, alto o bastante apenas para encharcar sapatos. Há pegadas úmidas sobre o piso, e os pés de Lúcia são gelo dentro das meias.

De súbito todo o mundo tem um cheiro enjoado de flor, a viúva vai vomitar, corre pra acudir a viúva, a viúva veio pro velório de pileque. A viúva vomita, de fato, emporcalhando (desavergonhada) as botas, mas a cunhada (que é prestativa) vai limpar tudo.

Lúcia olha os sapatos do Júlio morto, Júlio César de Souza, 56, gostava de panqueca e de filme de faroeste, tinha medo de gato, dormia de bruços, uns sapatos bem pretos bem lustrosos, limpinhos, guardados por anos, apenas mudados de caixa.

*Ana Santos nasceu em 1984, em Porto Alegre. É formada em jornalismo pela UFRGS e cursou a Oficina de Criação Literária da PUC-RS. Em 2008, foi contemplada com a Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Artística, na categoria Criação Literária. Tem contos publicados em antologias e nas revistas Bravo!, Cult e Ficções. É autora do livro de contos O que faltava ao peixe.

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22 de maio de 2012

seguimos

19 de maio de 2012

os dias passam

a barba cresce

e assim

a barca segue

Político

18 de maio de 2012

Estou devendo textos. Sim, tem gente cobrando. Legal, sinal de que tenho leitores. No plural. Mais de um. Sim, estou preparando uns textos para colocar aqui. Para a sua alegria. Ou não.

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18 de maio de 2012

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